Depois de vermos todo esse conjunto de conhecimento sobre as dores lombares a pergunta que pode vir é: mas e a Fisioterapia? Funciona ou não?
Funciona! E funciona, especialmente, se iniciada nos primeiros dias após a crise, ao invés de quando postergada (3, 4, 5) e se forem utilizadas as recomendações clínicas mais atuais, que enfatizam o uso de condutas ativas (como exercícios) ao invés de condutas passivas (como aparelhos) (1, 2, 4, 5).
E como se observa essa efetividade da Fisioterapia? Nesses estudos, ela é observada através de:
. melhora mais significativa da dor e da função motora e maior sucesso no tratamento (1, 2);
. menor uso de medicamentos (1, 3, 4, 5);
. menor necessidade de aplicação de injeções para dor (1, 3, 4, 5, 6);
. menor realização de exames de imagem (1, 4, 5, 6);
. menor necessidade de realização de cirurgias (3, 4, 5, 6);
e menor necessidade de novas consultas médicas (3, 6).
Além disso, essa efetividade se traduz também em menores custos. Aqueles que seguem um tratamento aderente realizado logo após o início das dores apresentam uma economia que pode chegar a, aproximadamente, $1400 (mil e quatrocentos dólares) (4, 5). Quando, devido a dores lombares inespecíficas (ou seja, de origem não grave) se realiza consulta com o Fisioterapeuta nas primeiras semanas após o início das dores pode se economizar cerca de $4.700 dólares ao invés de se realizar um exame de imagem como primeira opção (6).
Portanto, considere sempre a Fisioterapia como a principal opção de tratamento. Os benefícios não são apenas a redução de suas dores e limitações, mas também são benefícios econômicos e muitos outros.
Se você quer mais detalhes, continue lendo.
Começamos com uma análise retrospectiva que envolveu os dados de mais de 400 pacientes que procuraram serviço de saúde por causa de uma crise aguda de dores lombares demonstrou que aqueles pacientes que seguiram as recomendações baseadas nos guias clínicos mais atuais (relacionadas, principalmente, a um tratamento que envolva maior número de condutas ativas, como exercícios, ao invés de condutas passivas, como aparelhos), em comparação com aqueles que não receberam, necessitaram de menos sessões de Fisioterapia (economizando, $167 por indivíduo em sessões de Fisioterapia), uma melhoria da dor e da função mais significativa, além de maior nível de sucesso com o tratamento, sendo que, no ano seguinte a alta, necessitaram menos de medicamento, exames de ressonância magnética ou injeções analgésicas (1). Uma análise anterior (2) já havia demonstrado resultados similares, com melhora da dor e da função maiores no grupo que seguiu as recomendações, assim como maior nível de sucesso com o tratamento.
Uma outra análise retrospectiva, dessa vez com pacientes idosos (mais de 65 anos de idade) que envolveu mais de 400 mil indivíduos que procuraram o serviço de saúde com dores lombares agudas (incluindo dor ciática), analisou os resultados dos tratamentos em relação ao tempo que se levou para iniciar a Fisioterapia. Foram considerados 3 grupos, a saber: 1) fisioterapia iniciada na fase aguda (até 4 semanas após a visita inicial); 2) fase subaguda (iniciada depois da quarta semana até o terceiro mês); e 3) crônica (após terceiro mês até décimo segundo mês) (3). Os resultados demonstraram que a Fisioterapia iniciada nas fases aguda e subaguda, em relação à fase crônica, diminuiu significativamente a chance do paciente vir a realizar cirurgia, receber injeção epidural ou necessitar de visitas frequentes ao médico, sendo as diferenças maiores quando a Fisioterapia foi iniciada na fase aguda em relação à subaguda (3).
Em outro estudo que realizou uma análise retrospectiva dos dados de pacientes que procuraram o serviço de saúde devido a dores lombares agudas os resultados também demonstraram benefícios em iniciar a Fisioterapia o quanto antes (4). A análise de dados envolveu mais de 700 mil pacientes com 18 a 60 anos de idade que procuraram o serviço de saúde, cujas informações foram acompanhadas numa janela de 2 anos, e considerou que realizaram Fisioterapia os pacientes que a iniciaram até 90 dias após a consulta inicial. Em relação a esses, aqueles que a iniciaram até 14 dias após a consulta inicial foram considerado como tendo iniciado "cedo", enquanto os que a iniciaram entre 15 e 90 dias foram considerados "postergados". Aqueles que realizaram, ao menos, duas sessões de Fisioterapia foram ainda classificados em "aderentes" a uma Fisioterapia ativa (conforme os guias clínicos recomendam), ou "não aderentes", de acordo com as condutas realizadas (4).
Os resultados mostraram que pacientes que realizavam Fisioterapia precocemente (grupo "cedo") realizaram menos exames de imagem, receberam menos injeções, tomaram menos medicamentos opióides e necessitaram menos de intervenção cirúrgica. A economia, em relação ao grupo "postergada", foi de cerca de $1200 (mil e duzentos dólares), sendo o custo com o tratamento das dores lombares, nesse último grupo, foi de $3000 (três mil dólares) (4).
Os pacientes que seguiram os guias clínicos ("aderentes") não apresentaram diferenças em relação ao uso de opióides quando comparados aos "não-aderentes". Porém, realizaram menos cirurgias, menos exames de imagem e receberam menos injeções de opióides, para uma economia de $300 (trezentos dólares, em relação a um custo total, dos não-aderentes, de $2700) (4).
Já a comparação da combinação "cedo"+"aderentes" com "postergado"+"não aderentes" revelou que o primeiro grupo necessitou de menos exames de imagem, cirurgia, medicamentos opióides ou injeções. A economia de gastos foi de mais de $1400 (hum mil e quatrocentos dólares, de um total de, aproximadamente, $3400 - três mil e quatrocentos dólares) (4).
Um estudo anterior (5), já havia observado resultados similares. Nele foi feita uma análise retrospectiva do trajeto de indivíduos (mais de 2000 - dois mil) que eram encaminhados à Fisioterapia (90 dias, no máximo, após terem passado na consulta inicial com um médico), diferenciando aqueles que a realizavam a Fisioterapia nos primeiros 14 dias (precoce) ou após (postergada, de 15 a 90 dias após avaliação inicial), e aqueles que seguiam as recomendações dos guias clínicos para um tratamento com ênfase em terapias ativas (aderentes) em relação aos que não seguiam (não-aderentes), sendo a análise de dados feita pelo período de 18 meses após a consulta inicial.
Os resultados mostraram que aqueles que realizaram Fisioterapia "precoce" necessitaram de menos exames de imagem "avançados", cirurgias, injeções ou medicamentos opióides, sendo que aqueles que realizaram Fisioterapia "aderente" necessitaram de menos cirurgias e injeções em relação aos "não-aderentes (5). Dentro do período de 18 meses citado, o a economia relacionada ao tratamento da dor lombar foi de aproximadamente $1700 para os que realizaram Fisioterapia precoce, em relação à "postergada" (total de cerca de $5800 para o grupo "postergada"), e de cerca de $1300 no grupo aderente em relação ao não-aderente, que teve custos totais de, aproximadamente, $4900 (5).
Outro estudo (6) buscou verificar se a realização de exame de imagem ou início de tratamento de Fisioterapia, feito nos 42 primeiros dias após uma visita ao profissional de saúde por causa de dores lombares, tinham influência com novos gastos e/ou usos do sistema de saúde. Para isso analisaram os dados eletrônicos de mais de 2800 pacientes que procuraram serviços médicos na cidade de Salt Lake City, Utah (EUA), no período de 1 ano desde a consulta inicial. De fato, mais de 90% dos exames realizados foram Ressonância Magnética. Numa análise onde se buscou comparar indivíduos de gravidades similares, a economia gerada ao longo de um ano ao se realizar Fisioterapia antes do exame de imagem foi muito grande. Em torno de $4.700 (quatro mil e setecentos dólares - quem realizava exame de imagem primeiro tinha um gasto aproximado, nesse período de um ano, de $6.600) foi o quanto se deixou de gastar nesse período, quando se realizava a Fisioterapia antes do exame de imagem. Além disso, quem realizava exame de imagem antes apresentava maior possibilidade de vir a realizar cirurgia, receber injeções ou realizar novas consultas médicas (lembrando que essa análise foi feita com pacientes de gravidade similar, ou seja, buscou-se isolar as variáveis para verificar se isso devia-se, realmente, à realização do exame de imagem).
O que esses estudos nos sugerem? Que quanto antes for iniciado o tratamento Fisioterapêutico, nos casos de dores lombares, maiores os benefícios da Fisioterapia, especialmente em relação à prevenção da necessidade de se realizar cirurgia ou necessitar de medicamentos analgésicos, tanto em adultos como em pessoas da terceira idade. Além disso, destaca também a importância da utilização dos guias clínicos mais atuais, ou seja, da importância de se tratar de acordo com as evidências científicas mais modernas. E isso tudo tem um potencial de trazer economia de gastos bastante significativa.
Referências
1. Fritz JM, Cleland JA, Speckman M, Brennan GP, Hunter SJ. Physical therapy for acute low back pain: associations with subsequent healthcare costs. Spine. 2008 Jul 15;33(16):1800–5. FRITZ et al (2008)
2. Fritz JM, Cleland JA, Brennan GP. Does adherence to the guideline recommendation for active treatments improve the quality of care for patients with acute low back pain delivered by physical therapists? Med Care. 2007 Oct;45(10):973–80. FRITZ et al (2007)
3. Gellhorn AC, Chan L, Martin B, Friedly J. Management patterns in acute low back pain: the role of physical therapy. Spine. 2012 Apr 20;37(9):775–82. GELLHORN et al (2012)
4. Childs JD, Fritz JM, Wu SS, Flynn TW, Wainner RS, Robertson EK, et al. Implications of early and guideline adherent physical therapy for low back pain on utilization and costs. BMC Health Serv Res. 2015;15:150. CHILDS et al (2015)
5. Fritz JM, Childs JD, Wainner RS, Flynn TW. Primary care referral of patients with low back pain to physical therapy: impact on future health care utilization and costs. Spine. 2012 Dec 1;37(25):2114–21. FRITZ et al (2012)
6. Fritz JM, Brennan GP, Hunter SJ. Physical Therapy or Advanced Imaging as First Management Strategy Following a New Consultation for Low Back Pain in Primary Care: Associations with Future Health Care Utilization and Charges. Health Serv Res. 2015 Dec;50(6):1927–40. FRITZ et al (2015) artigo



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